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Cartão consignado RMC: dívida pode nunca acabar

O cartão consignado com RMC tem levado consumidores a dívidas sem fim. Apesar de parecer um empréstimo comum, ele funciona como cartão de crédito, com pagamento mínimo e juros elevados. Entenda como identificar o problema, os riscos e o que fazer para sair dessa situação

Cartão consignado RMC: dívida pode nunca acabar

O cartão consignado com RMC tem levado consumidores a dívidas sem fim. Apesar de parecer um empréstimo comum, ele funciona como cartão de crédito, com pagamento mínimo e juros elevados. Entenda como identificar o problema, os riscos e o que fazer para sair dessa situação

 




Resumo

  • Cartão consignado RMC é diferente do empréstimo tradicional
  • Desconto mensal paga apenas o mínimo da fatura
  • Dívida pode se tornar praticamente infinita
  • Falta de informação é um dos principais problemas
  • Consumidor pode buscar contrato e recorrer à Justiça
  • Idosos e beneficiários do INSS são os mais afetados


 

Muitos consumidores brasileiros têm contratado o chamado cartão consignado com RMC (Reserva de Margem Consignável) sem saber o que estão recebendo. Esse produto funciona de forma bem diferente do empréstimo consignado tradicional — e pode comprometer o orçamento por tempo indeterminado.

Segundo o advogado Fabrício Possoco, entrevistado no programa Consumo em Pauta, o risco começa já na forma como o produto é oferecido.

“O consumidor acredita que está contratando um empréstimo consignado comum, daqueles com parcelas fixas. Mas, na verdade, está entrando em um cartão de crédito.”

O resultado é uma dívida que, em muitos casos, não tem prazo para terminar.

Diferença entre empréstimo consignado e cartão RMC

No empréstimo consignado tradicional, o consumidor sabe exatamente quanto vai pagar e por quanto tempo. “No empréstimo consignado, eu pago 80 prestações e acabou. No cartão consignado, isso não ocorre.”

Isso porque, no cartão consignado RMC, o valor liberado funciona como um saque do cartão de crédito. E o desconto mensal feito no benefício ou salário paga apenas o mínimo da fatura. “Todo mês é como se eu pagasse o mínimo do cartão. Eu não estou pagando a dívida, estou pagando só os juros.”

Por que a dívida pode se tornar infinita

O problema central está nos juros do cartão de crédito, que são mais altos do que os do consignado tradicional. Mas há um outro ponto essencial que ajuda a entender por que essa dívida pode nunca acabar: o limite de desconto mensal.

No cartão consignado RMC, a lei permite que seja descontado apenas até 5% do valor líquido do benefício, já com todos os descontos

Na prática, funciona assim:

  • o consumidor recebe um valor de empréstimo (ex.: R$ 1.000);
  • esse valor é, na verdade, um saque do cartão de crédito;
  • mensalmente, ele recebe R$ 1.000 de benefício líquido
  • assim, apenas 5% do benefício é descontado (ex.: R$ 50);
  • esse valor costuma pagar apenas os juros e encargos do empréstimo.

“Eu não estou pagando a dívida, estou pagando só os juros, e, aí, a dívida só cresce”, informa Posocco. Ou seja, mesmo pagando todos os meses, o valor principal praticamente não diminui.

Esse mecanismo cria um ciclo difícil de romper:

  • o desconto é baixo (limitado a 5%);
  • os juros são altos;
  • o saldo devedor permanece ou até cresce.

“Muitas vezes, o consumidor já pagou aquele valor há muito tempo, mas a dívida continua. É o que chamamos de dívida infinita.”

O resultado é uma verdadeira “bola de neve”, que pode comprometer o orçamento por anos — ou até indefinidamente.

Como o consumidor entra nesse tipo de contrato

Segundo o especialista, o problema começa na abordagem comercial. “A pessoa pergunta: ‘É consignado?’ E quem está vendendo responde: ‘E aí que começa o grande problema.”

Muitas vezes:

  • o consumidor recebe uma ligação;
  • aceita a oferta sem entender o produto;
  • assina digitalmente em poucos segundos;
  • não recebe explicação adequada.

“Em 30 segundos, a pessoa contrata um produto cujo contrato tem de 10 ou 15 páginas. Humanamente, é impossível entender tudo.”

Margem consignável: quanto pode ser descontado do benefícioA legislação permite:

  • até 30% para empréstimo consignado tradicional
  • 5% para cartão RMC
  • 5% para outro cartão consignado (RCC)

Apesar de o percentual parecer pequeno, o impacto pode ser grande.

“Você pode sacar um valor alto e pagar só 5% por mês. Só que esse valor nunca quita a dívida.”

 


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Quem é mais afetado

O problema atinge principalmente:

  • aposentados
  • pensionistas
  • beneficiários do INSS
  • servidores públicos

Segundo o advogado, muitos consumidores nem sabem que contrataram um cartão.

“Em mais de 90% dos casos, a pessoa nunca recebeu nem o cartão físico. Ela acha que fez um empréstimo.”

O que fazer se você estiver nessa situação

O primeiro passo é buscar informação.

“A primeira coisa é pedir a cópia do contrato e o demonstrativo da dívida.”

Depois:

  1. verificar extrato no Meu INSS ou no holerite
  2. identificar descontos de cartão
  3. registrar reclamação no banco
  4. procurar canais como consumidor.gov.br e Banco Central
  5. buscar orientação jurídica

“Muitas vezes, o consumidor já pagou a dívida e pode até ter direito à devolução em dobro.”

Justiça tem sido favorável ao consumidor

Segundo Possoco, o Judiciário tem reconhecido os problemas nesse tipo de contratação.

“A Justiça tem sido sensível e, em muitos casos, converte o cartão em empréstimo consignado ou reconhece a irregularidade.”

Também podem ocorrer:

  • anulação do contrato
  • devolução de valores pagos a mais
  • indenização por danos morais

Alerta final ao consumidor

O especialista é direto:

“Se te oferecerem um cartão RMC, acenda a luz vermelha. Pare e investigue antes de aceitar.”

E faz um alerta importante:

“Às vezes, é melhor fazer um empréstimo com juros maiores do que entrar em uma dívida que não acaba nunca.”

Orientação prática

Se você tem desconto no seu benefício ou salário e não sabe a origem:

  • consulte seu extrato detalhado
  • verifique se há cobrança de cartão
  • observe se paga apenas valor mínimo mensal

Em caso de dúvida:

  • procure o banco
  • registre reclamação
  • busque o Procon
  • procure a Justiça, se necessário

O crédito pode ajudar — mas, sem informação clara, pode se transformar em um problema difícil de resolver.

Texto: Angela Crespo

Imagem criada por IA- Freepik

 

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